Programas de manipulação de fotos permitem criar lembranças artificiais

Imagem de uma bela casa no lago modificada no Photoshop / Foto: divulgaçãoRemover seu ex-marido de mais de uma década de lembranças em comum pode levar uma vida inteira para Laura Horn, 50 anos, despachante que trabalha na polícia de Rochester. Mas removê-lo de 12 anos de fotografias levou apenas algumas horas, com a ajuda do mouse e de um amigo fera no Photoshop.

Como um técnico do regime stalinista no Kremlin removendo funcionários públicos caídos em desgraça com o governo, o amigo removeu a imagem do ex-marido de várias fotos tiradas em cruzeiros, férias caribenhas e outros lugares, onde aparecia ao lado da então esposa e de outros companheiros de viagem.

- Na minha realidade pessoal, eu sei que essas coisas aconteceram - diz Laura. - Mas sem ele nas fotos posso olhar para elas e pensar no riso que compartilhávamos e nos lugares aonde fomos. Essa nova realidade é muito mais agradável.

Novos softwares facilitam mudanças em retratos

À medida que programas de edição de imagens ficam mais sofisticados e onipresentes, as alterações também se incrementam, ultrapassando em muito a redução de olhos vermelhos ou o branqueamento dos dentes numa fotografia. As novas possibilidades incluem a substituição de cabeças dos fotografados em busca dos melhores sorrisos, a exclusão de pessoas com personalidades problemáticas, o acréscimo de membros da família que não puderam ir a eventos importantes, a lipoaspiração virtual, a restauração de cabelos e penteados, e até a ressurreição dos mortos. É o revisionismo histórico ao alcance de todos.

Com as pessoas mexendo cada vez mais com as fotos em seus álbuns e cadernos, a emoção e a vaidade tendem a ganhar da verdade objetiva. Em alguns casos, podem até alterar lembranças - ahn, o primo André estava no casamento, certo?

Na era da manipulação digital, muitos acreditam que instantâneos e fotos de família não precisam mais ser um registro definitivo do que aconteceu, mas sim um registro do que desejamos que tivesse acontecido.

- Antes, as fotografias eram provas documentais, e havia algo sacrossanto nisso - diz Chris Johnson, professor de fotografia da Escola de Artes da Califórnia, em São Francisco.

Antes, a opção era usar caneta ou tesoura para mexer nas imagens

Se você quisesse remover um ex de um velha foto, tinha de usar uma caneta Bic ou uma tesoura. Agora, na era digital, as pessoas tratam as fotos como uma mistura musical, combinando vários elementos para chegar a um resultado mais agradável.

- Estamos realizando o sonho de moldar a realidade segundo nosso gosto, um sonho que sempre tivemos - diz Chris Johnson.

E ele não é exceção. Quando fotografou um casamento para a família de sua namorada, há alguns anos, deixou um espaço no fim de um grande grupo para um parente que não pudera comparecer. Meses depois, encontraram o parente, tiraram uma foto dele e Chris usou o Photoshop para colá-lo no grupo.

" Estamos realizando o sonho de moldar a realidade segundo nosso gosto "

Na verdade, o impulso de registrar momentos familiares históricos mais subjetivos do que objetivos é tão velho quanto a própria fotografia. No século XIX, as pessoas costumavam posar com objetos como lenços ou bolsas que pertenciam a parentes ausentes ou mortos, para incluí-los emocionalmente numa imagem, explica Mary Warner Marien, professora de história da arte da Universidade de Siracusa. Na Índia, prossegue ela, é uma tradição recortar e colar fotos de membros da família ausentes em álbuns de casamento, como um gesto de respeito e inclusão (isso é que é inclusão digital, hein?).

- Lá, todos entendem que isso não é um truque, mas é da natureza da fotografia - diz Mary. - É a visão ocidental da realidade que diz que o que está na frente da lente tem que ser verdade.

Leia mais: Antes da fotografia, história era alterada nas pinturas

Versão caseira do Photoshop popularizou a tecnologia

Até bem recentemente - mesmo no início desta década -, muita gente ainda registrava seus retratos de família em filmes fotográficos, e as modificações eram limitadas. Mesmo entre os aficionados da fotografia digital, só os profissionais ou amadores ambiciosos compravam programas como o Photoshop. Mas agora, com a versão caseira Photoshop Elements sendo vendida por cerca de US$ 100, fica tudo mais fácil. As vendas do programa aumentaram 20% no último ano, segundo a Adobe. E há outros programas, como o GIMP (GNU Image Manipulation Program, para Windows e Linux), gratuitos para download na internet. Isso sem falar do iPhoto e do Picasa, ou dos quiosques fotográficos em lojas, que também manipulam imagens. E abundam na web serviços de retoques fotográficos. Fotógrafos profissionais também mexem na realidade para satisfazer o gosto do cliente.

Depois da morte de seu pai, há vários anos, a contadora Theresa Rolley contratou Wayne Palmer, retocador fotográfico, para criar uma foto dos dois, porque ela não tinha nenhuma imagem junto com ele. A foto - de um momento que nunca aconteceu - hoje está pendurada em sua sala. E às vezes a faz chorar.

- É meu único retrato com meu pai - diz. - Se o único jeito de consegui-lo foi montando, isso não tira seu valor para mim.

" Mesmo montado, é o único retrato que tenho com meu pai "

Tais manipulações do passado podem represntar até uma forma de enfrentar melhor os problemas, diz a socióloga Heather Downs, da Universidade de Illinois.

- As imagens idealizadas podem dar às pessoas um novo caminho para resolver problemas familiares que sempre existiram: parentes que não se dão, brigas, divórcios... Se você não pode ter a família perfeita, pelo menos pode criá-la no Photoshop.

Foi que fez Ellen Robinson, que contratou uma fotógrafa para tirar e depois retocar uma foto formal de sua família. A fotógrafa mudou as expressões dos retratados, inseriu o cachorro da família na imagem e retocou corpos e cores de roupas para criar um registro de bom gosto.

- A idéia é que essas fotos durem a vida inteira - diz Ellen. - Então, por que não dar uma mãozinha para deixá-las nos trinques?

Fotografia nem sempre é sinônimo de realidade, diz expert

A fotografia sempre representou, até certo ponto, uma distorção da realidade, diz Per Gylfe, diretor do laboratório de mídia digital do Centro Internacional de Fotografia em Nova York. Um fotógrafo pode criar diferentes impressões da mesma cena incluindo ou omitindo elementos, trocando de lente, ou mexendo na cor e no tom da foto na sala escura.

- Sempre achamos que as fotos eram provas de acontecimentos, mas provavelmente nunca deveríamos tê-las considerado como tal - diz Per.

A motivação para criar imagens idealizadas de si mesmo ou da família é ainda maior na era em que os álbuns saíram do armário para a internet. E cada vez mais pessoas aceitam as mexidas nas fotografias, porque elas estão em todos os lugares da rede e são muito comentadas. A imagem manipulada de um teste de mísseis pelo governo iraniano, que circulou no mês passado, virou tema de blogs no mundo inteiro.

E a exposição de mentiras nas fotos tem sido virou um gênero de entretenimento explorado por blogs como o Photoshop Disasters, mostrando exemplos de manipulação de imagens na mídia.

- A mídia está cheia de fotos manipuladas, por isso na vida pessoal há cada vez menos resistência a mexer nas imagens - diz Fred Ritchin, professor de fotografia da Universidade de Nova York.

Photoshop permite copiar a mesma imagem diversas vezes / Foto: divulgação

Não por acaso, Keze Stroebel-Haft, 23 anos, retocadora de uma agência de publicidade, usa o Photoshop para remover manchas e queixos duplos em fotos suas que posta no MySpace e no Facebook.

- Está em todos os lugares. Nas capas das revistas, as mulheres bonitas são "photoshopizadas", e sua pele é limpa. Todo mundo faz isso.

Apesar de tudo, as velhas fotos de famílias, intocadas, ainda são de grande valor psicológico. Alan Entin, psicólogo de Richmond, inclusive as usa para inspirar debates familiares sobre o papel de cada membro.

- Essas fotos existiram para além do tempo e do espaço, são documentos importantes - diz. - Alterá-las é enganar a si mesmo. Aceitar uma fotografia sua sem retoques é aceitar a realidade de quem é você, de sua aparência, sem esconder os defeitos. Os retratos que detestamos dizem tanto sobre nós quanto os retratos que amamos.

Via: Digital

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